A Microsoft de Satya Nadella: um recomeço?

É muito simples, para uma empresa gigante e que dominou o setor por anos, tornar-se relapsa, e até mesmo medíocre. Estando numa posição acima das demais, os diretores passam a ver as inovações do setor como não-relevantes, e que não ameaçam o status quo do setor, no qual ela, a maioral, continua dominando. Mas a triste notícia (para esta empresa, é claro, já que para os consumidores é ótimo), é que tais inovações acontecem, são importantes, e muitas vezes são disruptivas (eu tenho um problema com esse termo – todo mundo quer ter uma inovação disruptiva, mesmo sem entender direito o que é, e como chegar em tal estágio, mas isso é outro assunto). Foi o que aconteceu com a Microsoft. Seu sistema operacional para computadores domina o mercado por muito – quase 90% de todos os computadores pessoais rodam alguma versão do popular sistema operacional da companhia fundada por Bill Gates.

Porém, as mudanças vêm e, na área da computação, elas são muito rápidas e frequentes. Ruim para a empresa de Redmond, que agora sofre. Sofre? É, pode-se dizer que sim, já que em setores que hoje são vitais, ela ficou pra trás:

 

  • Smartphones: Aqui não precisa falar nada, certo? A Microsoft claramente perdeu um oceano de oportunidades nesse segmento. O primeiro iPhone foi lançado em 2007 (sim, já fazem quase 10 anos no momento que escrevo – abril de 2016). O primeiro smartphone comercial rodando Android, em 2008… E a Microsoft? Bom, ela já tinha um setor de desenvolvimento móvel desde 2004, que foi reformulado em 2008, mas por problemas burocráticos, demorou muito a engrenar. O Windows Phone 7 foi lançado em 2010 (e ninguém lembra dele. Eu mesmo só usei a partir da versão 8). Três anos após o iPhone, e dois após o Android, que tinha uma vantagem crucial: a Open Handset Alliance, uma reunião entre diversas empresas para lançar padrões abertos para o desenvolvimento móvel, sendo o principal “produto” o Android. Fazem parte dela a HTC, a Qualcomm, a Samsung, LG, entre outros diversos players de peso.Enquanto isso, a Microsoft só conseguiu fechar uma parceria forte com a Nokia (que posteriormente compraria, numa compra muito discutida, já que a Nokia, pelos mesmíssimos motivos da Microsoft, havia sido passada pra trás).
    E quando se fala em smartphones, se fala também em aplicativos. E esses aplicativos são feitos por desenvolvedores, que precisam investir tempo e dinheiro em sua formação, já que muitas vezes é necessário aprender uma nova linguagem, usar novas ferramentas, e até mesmo o custo para se registrar na loja da Apple e do Google. Então, quando a Microsoft desenvolveu um produto decente – o Windows Phone 8, nem os consumidores, nem os desenvolvedores deram bola, pois já estavam bem servidos com o iOS e o Android. E eu digo isso sendo um fã do Windows Phone. Eu considero ele um excelente sistema operacional, muito bem desenvolvido. É só comparar que roda bem em hardwares muito mais limitados que o Android, e de uma forma bem mais fluída. Mas nessa área, timming é tudo. Microsoft não teve, perdeu.E mesmo hoje em dia, a Microsoft nunca conseguiu alavancar seu produto, muito em decorrência daquilo que eu falei: desenvolvedores não vão investir seu tempo aprendendo a programar para Windows Phone se não tiver clientes, e os clientes apontam a falta de aplicativos como um dos principais motivos para não migrarem para o SO da Microsoft. E não foi por falta de esforços da Microsoft, já que deu uma série de incentivos aos programadores (e o MSDN é excelente, muito material de referência). Dia 21 de abril a empresa lançou seus relatórios contábeis, já que é uma empresa de capital aberto, e precisa prestar contas aos seus acionistas. Nesse relatório, nenhuma surpresa. O sistema operacional móvel da Microsoft fracassou: em comparação com o mesmo período do ano anterior, as vendas de Lumia diminuíram 73% (8,6 mi x 2,3 mi atualmente). Muito pouco. Uma pena, porque eu gosto do sistema.

 

  • Nuvem computacional: O advento da nuvem computacional foi algo que a Microsoft também demorou a considerar como vital, para ter lucro. Só não foi pior porque a cargo desta divisão estava o Satya Nadella, que abordarei com mais detalhes. Mas é inegável que a Microsoft demorou a lançar um serviço a altura das concorrentes. Talvez nem na questão da infraestrutura da Microsoft, mas o marketing em cima (que é fundamental, vide Apple). Digo isso pois os principais concorrentes são da mesma época, quase. O principal, a Amazon Web Services, é o mais antigo dos três que vou comentar aqui: é de 2006. E de lá pra cá a gama de serviços aumentou consideravelmente, e o número de datacenters disponíveis, também. O Google Cloud Plataform teve seu primeiro produto (App Engine, muito usado por desenvolvedores, para testes e pequenos sites e serviços), em 2008. O Google Cloud Storage, em 2010. E a Microsoft, sob o nome Azure, foi anunciado em 2008, e lançado, efetivamente, em 2010.

 

Olhando o market-share, percebe-se que a Microsoft já é um player de respeito, tendo 9% do mercado de IaaS (Infra-structure as a Service, isto é, os servidores alocados, sendo pago por hora, e por máquina). Mas e a função do Satya Nadella nessa história toda?

Nadella, antes de assumir o cargo de CEO, era o responsável pela divisão de “Tools and Services”, que é a responsável, por exemplo, pelo Microsoft Azure (que falei acima) e o SQL Server, o servidor de banco de dados da empresa. E aqui se faz um comentário: o SQL Server é um dos principais servidores utilizados em grandes empresas (concorrendo com a Oracle, SAP e a IBM), sendo extremamente robusto (o StackOverflow, por exemplo, que é muito utilizado para sanar dúvidas de programadores, roda o SQL Server).

Mas o que o Satya Nadella difere do seu antecessor, Steve Ballmer? A sua formação. Ballmer é economista, laureado em Harvard. Sua trajetória na empresa é sensacional, sendo atualmente o maior acionista dela. Acredito que sua competência como administrador está acima de qualquer dúvida, mas a sua visão de mercado, no setor de TI… nela eu já não acredito. Devemos lembrar que foi sob sua gestão que a Microsoft perdeu a mina de ouro que se tornaram os smartphones, além de investimentos duvidosos, como na compra do Skype (pela bagatela de US$ 8.5 bi. Sim, quase nove bilhões). Será que teve lucro? Acho improvável.

Ademais, vivemos em uma época que o que está em voga são os serviços. Ninguém mais aluga um DVD, tu assina a Netflix (se bem que no Brasil, a Anatel discorda do meu pensamento). Música? Spotify, Deezer, Google Music. Cursos? Tu tem o Alura, que tu paga uma mensalidade e tem acesso a todos os cursos deles. E assim por diante. E por ter essa experiência na área, Nadella está reestruturando a empresa.

A Microsoft era conhecida por fechar todos seus códigos, distanciando-se o máximo possível do open-source. Recentemente, isso vem mudando. O núcleo do .NET (tecnologia da empresa para desenvolvimento web) tornou-se aberto. Aqui está a prova, o ASP.NET no Github. Fora isso, a Microsoft tem apostado mais em serviços e suporte (o caso do .NET é emblemático, já que a empresa fornecerá o suporte para quem precisar, e cobrando bem por isso). Office agora tem a opção de ser “alugado” mensalmente, o Office 365.

Outra novidade da Microsoft: SQL Server para Linux. Até agora, quem quisesse utilizar o servidor, precisaria de uma licença do Windows Server, já que o banco de dados era monoplataforma. Não mais. Com isso, o SQL Server passa a competir com o Oracle em outra frente, que é nos servidores Linux. Excelente jogada da Microsoft.

E por último, mas não menos importante, o Windows 10 virá com o Bash. Sim, com o bash! Para quem não usa o Linux, o bash é um interpretador de comandos, tipo o prompt de comando mas muito, muito mais poderoso. Quase todo programador utiliza massivamente um terminal, pois é muito mais fácil do que a interface gráfica, para determinadas tarefas. E o melhor é essa parceria entre Microsoft e Canonical, porque, honestamente, o Windows era sofrível para programar. Excetuando C# e a plataforma .NET, nada mais rodava fácil no Windows. Ruby e Python tinham uma perda de desempenho considerável, já que eram adaptações ao sistema operacional, já que foram desenvolvidos, inicialmente, para sistemas UNIX-like. Com o bash, e outras iniciativas semelhantes, isso deverá mudar.

Mas nem tudo são flores, claro que não. A empresa passou um bom tempo em um modo letárgico, e demora para se recuperar. Ademais, o CEO deverá enfrentar esse problema dos Lumia: aborta o Windows Phone, ou continua insistindo? São milhares de dólares em jogo. Outro ponto que a Microsoft ficou para trás foi nos videogames. O PlayStation 4 tem vendido muito mais que o Xbox One. O que fazer para reverter isso? São questões que o Nadella, juntamente com a alta cúpula da empresa, precisa definir.

Talvez a solução seja parecida com a que Jack Welch fez na General Electric: se desfez de todas as operações em que não poderiam ser a melhor do setor (ou no máximo a segunda). Foi uma redução gigante, com diversas divisões sendo fechadas, mas pelo bem da empresa como um todo, mantendo as partes saudáveis, podendo dar mais enfoque (leia-se recursos) a elas.

Não sei. Só sei que a Microsoft tem mais chance de vingar com Satya Nadella, do que com Steve Ballmer.